No Bom Dia Brasil de 11 de agosto, dia da divulgação do IPCA, Míriam Leitão explicou que "os números nem sempre coincidem com a sensação. Às vezes, você tem a sensação de preço alto, sensação de carestia, mesmo quando os índices estão mostrando queda", e citou: "batata caiu, tomate caiu, café caiu". Registre-se a precisão que este site deve ao leitor: a frase de meme "não existe inflação" ela não disse, e os três itens caíram mesmo em julho, pelo IBGE. O problema da fala, na avaliação desta casa, um site liberal, cético do poder e crítico da carga tributária que corrói o poder de compra, não é de citação: é de recorte. O que ficou de fora da tela é exatamente o que o consumidor sente na etiqueta, e tem número oficial.
O que a tela não mostrou
O tomate caiu 29,09% em julho, pico sazonal da colheita, mas acumula alta de 29,35% em 2026, segundo o próprio IPCA detalhado pela CNN. A cebola subiu 7,74% no mês e 65,21% no ano. O café, cuja queda recorde de 17,2% em 12 meses virou manchete, apenas devolveu uma fração da disparada de 99,48% entre janeiro de 2024 e junho de 2025, calculada pelo Instituto Fome Zero: o pacote que dobrou de preço e depois ficou 17% mais barato segue custando muito mais que em 2023. As carnes rodam acima do IPCA em 12 meses. E o dado-síntese, do Ipea: no acumulado de 2026, a faixa de renda baixa tem a maior inflação entre todas as classes (+3,60%), pressionada por alimentos (+4,1%) e energia elétrica (+6,8%). Índice mede variação; bolso sente nível. Quando a comentarista lembra que desaceleração não é queda de preço, está tecnicamente certa, e é justamente por isso que o "está difícil de fazer todas as compras", que ela mesma admitiu, merecia a manchete que a "sensação" levou. A metade dita era a que conforta o governo; a metade calada era a que o incomoda.
O imposto no meio da conta
Há um sócio silencioso na etiqueta que nenhum comentário econômico da TV destacou naquela manhã: o Estado. No litro de gasolina vendido à média nacional de R$ 6,53 (ANP, agosto), cabem cerca de R$ 2,36 de tributos, um terço do preço: R$ 1,57 de ICMS monofásico, reajustado em janeiro, e R$ 0,79 de PIS/Cofins. Nos extremos reais do país, o litro chegou a R$ 11,19 em Fernando de Noronha e a R$ 9,79 no Guarujá, pelos levantamentos da ANP e da imprensa. O diesel a R$ 6,91 entra no frete de tudo o que chega à gôndola. E o mesmo governo que celebra o IPCA de 0,07% estreia em janeiro o Imposto Seletivo sobre cerveja e refrigerante com alíquotas ainda indefinidas, como esta casa mostrou na matéria sobre a virada tributária de 2027. Falar de "sensação" sem falar do imposto é analisar a febre ignorando o termômetro que o próprio Estado esquenta.
A chave de leitura que os críticos apontam
Por que uma comentarista experiente escolhe o recorte que escolhe? Esta casa não lê mentes e não afirma motivação; documenta o padrão e o contexto, e o leitor conclui. O padrão, datado: "A inflação deste ano é uma boa notícia" (dezembro de 2023); "Inflação é alta, mas não está descontrolada" (janeiro de 2025, terceiro ano seguido de IPCA sobre o teto da meta); "Nem todo o aumento de imposto é ruim" (2025). O contexto que os críticos apontam: a militância de juventude no PCdoB, nos anos de chumbo, pela qual foi presa e torturada em 1972 e absolvida; e o primeiro marido, Marcelo Netto, que foi assessor especial de Antonio Palocci na Fazenda do primeiro governo Lula e acabou indiciado pela PF no caso da quebra ilegal do sigilo do caseiro Francenildo, em 2006, episódio que ele nega e no qual a reportagem não localizou condenação. As ressalvas de sempre: o mesmo Marcelo Netto serviu ao governo Collor na Radiobrás, o casamento com Míriam terminara décadas antes, e ela própria apanhou do PT por anos, da peça de desinformação que o partido montou contra ela em 2014 ao voo em que delegados petistas a chamaram de "terrorista" em 2017. O histórico completo não absolve o recorte de 11 de agosto; explica por que cada lado enxerga nela o que quer enxergar. O que este site cobra não é biografia: é régua.
A régua desta casa
Expor números com o mínimo de maquiagem possível é a razão de existir deste portal. Os dados que usamos aqui são os mesmos do IBGE, do Ipea e da ANP que valem contra qualquer governo, e é por serem íntegros que doem: a cesta de quem menos tem lidera a inflação do ano, o café dobrou antes de "cair", o tomate está 29% mais caro que em janeiro e o Estado leva um terço de cada litro no posto. Dizer "sensação" diante disso, na avaliação desta casa, é minimizar a carestia com elegância técnica, e o eleitor que empurra o carrinho meio vazio no mercado não precisa de meme para saber disso. Precisa, como sempre, de número com fonte. Estão todos aí embaixo.
Fontes
Pleno.News: a fala de Míriam Leitão no Bom Dia Brasil, com transcrição (11/08/2026)
Ipea: inflação por faixa de renda, julho/2026; renda baixa lidera o acumulado do ano (20/08/2026)
Instituto Fome Zero: preços de alimentos no triênio, café +99,48% entre jan/2024 e jun/2025
Jornal do Comércio/IBGE: café acumula maior queda do Plano Real após subir mais de 80% (11/08/2026)
Comsefaz: ICMS monofásico da gasolina a R$ 1,57/litro desde 01/01/2026
Correio Braziliense: PIS/Cofins da gasolina em R$ 0,79/litro (23/04/2026)
Gasolina passa de R$ 11 em Fernando de Noronha (06/06/2026)
ANP via Acessa: médias semanais e o litro a R$ 9,79 no Guarujá (jul/2026)
Aos Fatos: a peça de 2014 criada pelo PT contra Míriam Leitão (15/07/2021)
O Tempo: Marcelo Netto é indiciado pela PF no caso Francenildo (18/04/2006)