Oficializado candidato à reeleição na convenção nacional do PT, em 2 de agosto, no Expo Center Norte, em São Paulo, o presidente Lula colocou de novo o combate à fome no centro do palanque. No discurso de pouco mais de uma hora, ao lado do vice Geraldo Alckmin (PSB), afirmou que pretende fortalecer as políticas de combate à fome e lembrou os 33 milhões de brasileiros em insegurança alimentar que diz ter encontrado ao voltar ao Planalto em 2023, número de pesquisa da Rede Penssan de 2022 cuja comparação com os dados atuais é contestada por usar metodologia distinta da oficial, como já apontou a Gazeta do Povo. "Eu não quero mais ser o presidente do Bolsa Família. É preciso mais, mais, mais, e mais", disse, segundo o Brasil de Fato.
A estratégia é declarada: segundo o Portal do Amazonas, a campanha vai usar a saída do Brasil do Mapa da Fome da FAO como um dos principais argumentos, em contraste com o retorno do país à lista registrado com dados do período do governo Bolsonaro, a quem Lula, na convenção, se referiu sem dizer o nome, chamando-o de "coisa" e "traste", segundo o Poder360.
Uma promessa com 37 anos de estrada
A promessa, porém, é bem mais antiga que a rivalidade com Bolsonaro. Como recapitulou o site Carta de Notícias, Lula promete erradicar a fome desde a primeira campanha presidencial, em 1989, passando por 1994, pela posse de 2003 (quando lançou o Fome Zero como missão primordial do governo) e pela campanha de 2022. No mandato atual, fixou meta com data: acabar com a fome até 31 de dezembro de 2026. Em novembro de 2024, repetiu em evento no Rio, segundo o Estado de Minas: "em 2026, não teremos nenhum brasileiro passando fome".
O histórico do Mapa da Fome ajuda a entender o vaivém, e não poupa ninguém. O Brasil saiu do mapa pela primeira vez em 2014, no governo Dilma Rousseff (PT), como registra artigo do representante da FAO no Brasil, Jorge Meza; voltou à lista com dados do período 2019-2022, sob Bolsonaro; e saiu de novo no relatório de 2025, permanecendo fora no de 2026. Dos últimos 24 anos, o PT esteve à frente do Planalto em cerca de 17: a promessa de 1989 atravessou os próprios governos do partido sem ser dada por cumprida.
A régua que o próprio candidato fixou
Sair do Mapa da Fome é uma conquista real, verificável e que deve ser reconhecida. Mas convém medir o candidato pela régua que ele mesmo criou: fome zero até 31 de dezembro de 2026. Pelo critério do IBGE, 3,2% dos domicílios brasileiros (cerca de 2,5 milhões) ainda estavam em insegurança alimentar grave em 2024, o melhor resultado da série, e ainda assim distante de zero. O eleitor fará bem em separar as duas coisas: reconhecer o indicador que melhorou é honestidade; tratar uma promessa de 37 anos como novidade de palanque é memória curta. Em outubro, quem diz se a régua foi cumprida é o voto.
Fontes
Poder360: cobertura da convenção nacional do PT (02/08/2026)
Brasil de Fato: Em convenção, Lula promete foco em soberania (02/08/2026)
Portal do Amazonas: Saída do Mapa da Fome será destaque na campanha de reeleição (22/07/2026)
Carta de Notícias: Lula mantém discurso sobre erradicação da fome há 37 anos (16/08/2026)
ONU Brasil: artigo do representante da FAO, Brasil voltou a sair do Mapa da Fome (14/08/2025)
Estado de Minas: Lula promete zerar fome no Brasil antes do fim do mandato (16/11/2024)