O Brasil chega à reta final de 2026 com a dívida bruta do governo geral em 81,9% do PIB (cerca de R$ 10,8 trilhões em junho, segundo o Banco Central), alta de 10,2 pontos percentuais no atual mandato, e com uma conta de juros que bateu recorde: R$ 1,16 trilhão em 12 meses, o equivalente a 8,8% do PIB, a maior da série do Banco Central. O déficit nominal (o buraco total das contas, juros incluídos) roda perto de 9% do PIB. São esses números que o próximo presidente, seja quem for, vai herdar em 1º de janeiro de 2027.
As projeções independentes não são tranquilizadoras. A Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão técnico ligado ao Senado, projeta no cenário base a dívida bruta em 86,4% do PIB em 2027 e 90,1% em 2028, e estima em 78,9% a probabilidade de a dívida superar 90% do PIB em algum ano até 2030. Para estabilizá-la, o país precisaria de superávit primário de 2,1% do PIB por ano; hoje opera em déficit. O diagnóstico da IFI fala em cenário "preocupante e desafiador para o próximo mandato presidencial". O FMI, por metodologia própria e mais ampla, calcula a dívida em 97,8% do PIB em 2026 e recomenda ajuste; a Moody's estima que o próximo governo precisará de aperto de 2% a 2,5% do PIB.
Calote não é o risco; a conta dos juros é
É preciso precisão aqui: nenhuma das instituições consultadas (IFI, FMI, Tesouro, agências de risco) projeta calote ou incapacidade de pagamento em 2027. O Tesouro entrou em 2026 com colchão de liquidez de R$ 1,19 trilhão, suficiente para cerca de sete meses de vencimentos, e a dívida é quase toda em reais, rolada em um mercado doméstico profundo. Nenhuma das três grandes agências de risco cortou a nota do Brasil em 2026, e a Fitch reafirmou em junho o rating BB com perspectiva estável.
O risco real é outro, e aparece na vida de todo mundo: rolagem cada vez mais cara. Cerca de metade da dívida está atrelada à Selic, como alertou o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, ao Senado. Com a Selic em 14% ao ano e juro real implícito de 7,8% ao ano na conta da IFI, cada ponto de desconfiança vira despesa. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, atribui a alta da dívida ao custo de rolagem, não ao gasto: "É na rolagem da dívida, e não nos gastos", disse à GloboNews, segundo a Agência Brasil. A IFI responde com uma projeção dura: sem mudança de rumo, serão déficits primários por cerca de dez anos.
O que isso significa para os serviços públicos
O mecanismo é conhecido. Como as despesas obrigatórias (Previdência, pisos de saúde e educação, emendas parlamentares) crescem dentro de um limite de gasto apertado, o ajuste recai sobre as despesas discricionárias: investimento, custeio das máquinas públicas, obras. Em 2026, o governo mantém R$ 17,9 bilhões bloqueados no Orçamento. Se a consolidação fiscal frustrar, o custo aparece como juros altos por mais tempo, câmbio pressionado, inflação e menos investimento público e privado. O Orçamento de 2027 deve ser enviado ao Congresso até 31 de agosto, com meta de superávit de 0,5% do PIB que a própria IFI considera apoiada em parâmetros otimistas. A eleição de outubro deveria ser, antes de tudo, um debate sobre essa conta: ela não escolhe partido, e quem vencer vai administrá-la desde o primeiro dia.
Fontes
Poder360: Dívida bruta atinge 81,9% do PIB em junho, diz Banco Central (31/07/2026)
IFI/Senado: Relatório de Acompanhamento Fiscal n.º 113 (25/06/2026)
Agência Brasil: Durigan diz que aumento da dívida decorre dos juros, não dos gastos (06/08/2026)
InfoMoney: Fitch mantém nota BB do Brasil com perspectiva estável (16/06/2026)
Poder360: FMI vê dívida se aproximando de 100% do PIB na métrica própria (23/07/2026)