Recuperações judiciais batem recorde e reestruturações somam bilhões num país com desemprego na mínima histórica
O Brasil de 2026 exibe dois retratos econômicos simultâneos: desemprego na mínima histórica de 5,4% e recorde de recuperações judiciais. E a própria taxa de…

O Brasil de 2026 exibe dois retratos econômicos simultâneos e verdadeiros. De um lado, o desemprego caiu a 5,4% no segundo trimestre, a menor taxa de toda a série histórica da PNAD Contínua, iniciada em 2012, com recorde de ocupados (103,1 milhões), e 2025 registrou recorde de abertura de empresas (5,1 milhões de CNPJs, segundo o Mapa de Empresas). De outro, 2025 fechou com 2.466 empresas em recuperação judicial, o maior número da série histórica da Serasa Experian, também iniciada em 2012, alta de 13% sobre 2024, e uma sequência de reestruturações bilionárias atravessa 2026.

A lista de casos é longa e real. A Raízen, gigante sucroenergética de Cosan e Shell, pediu em março a maior recuperação extrajudicial da história corporativa do país, para renegociar cerca de R$ 65 bilhões em dívidas. A Casas Bahia reportou prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre (a maior parte em efeitos contábeis não recorrentes), fechou 298 lojas e admitiu avaliar nova recuperação extrajudicial ou judicial. Os Correios tiveram prejuízo de R$ 8,5 bilhões em 2025, o pior resultado da história da estatal, e recorreram a empréstimo de R$ 12 bilhões com garantia do Tesouro. A Land Rover encerrou a produção em Itatiaia (RJ), afetando 371 trabalhadores diretos, e a chinesa Chery negocia assumir a planta. O Grupo Mateus fechou 28 lojas e desligou 6,7 mil funcionários em reestruturação, embora siga lucrativo. A Michelin fechou a fábrica de Guarulhos (cerca de 350 empregados), citando concorrência de importados asiáticos. O Bradesco fechou 324 agências em 12 meses, eliminando 2.448 postos de trabalho, movimento que atribui à digitalização, com lucro de R$ 13,9 bilhões no semestre.

O que os números não autorizam dizer

A precisão importa, até para a crítica ser levada a sério. A Toyota fechou a fábrica de Indaiatuba (SP), mas concentrou a produção em Sorocaba, mantém investimento anunciado de R$ 11 bilhões até 2030 e inaugura nova planta em novembro: consolidação, não fuga. A Petrobras não teve prejuízo: lucrou R$ 110,1 bilhões em 2025 e R$ 52,4 bilhões só no segundo trimestre de 2026. E as falências caíram 19% em 2025, na contramão das recuperações judiciais.

O que a taxa de 5,4% mede (e o que fica de fora)

O recorde é verdadeiro pela régua oficial, e a régua é a mesma desde 2012, seguindo o padrão da Organização Internacional do Trabalho. Mas convém saber o que ela mede. Para o IBGE, é ocupada a pessoa que trabalhou ao menos uma hora na semana de referência da pesquisa, ainda que num bico, sem carteira e sem garantia de repetir a renda na semana seguinte. E só é desocupado quem tomou providência efetiva para conseguir trabalho nos últimos 30 dias: quem desistiu de procurar, o desalentado, sai da conta do desemprego e vai para o grupo de fora da força de trabalho.

Por isso o próprio IBGE publica réguas complementares, e elas contam uma história menos triunfal: no segundo trimestre de 2026, a taxa composta de subutilização, que soma desocupados, subocupados por insuficiência de horas e a força de trabalho potencial, ficou em 12,9%, mais que o dobro da taxa de desemprego; a informalidade alcança 37,4% dos ocupados (no Maranhão, 56,9%); e o desalento estava em 2,1% no início do ano. Convém traduzir porcentagem em gente: em fevereiro, a subutilização alcançava 16,1 milhões de pessoas, segundo levantamento da Gazeta do Povo com dados do IBGE. A taxa de desemprego é uma fotografia do trimestre, a fatia da força de trabalho sem ocupação; ela não mede o total de brasileiros sem trabalho digno. O recorde de 5,4% é real; só não é sinônimo de precariedade zero. Trabalho de uma hora por semana conta igual na estatística, mas não paga o mercado do mês.

Há ainda o efeito de quem saiu da conta. A taxa de participação, a parcela da população em idade de trabalhar que trabalha ou procura trabalho, estava em 62,0% no primeiro trimestre de 2026, abaixo dos 63,4% do fim de 2019, segundo a FGV Ibre; pelo cálculo contrafactual da instituição, se a composição do mercado fosse a de antes da pandemia, o desemprego do primeiro trimestre, oficialmente 6,1%, seria de cerca de 7,4%. Estudo do economista Daniel Duque, da FGV Ibre, aponta um dos motores: com o benefício médio do Bolsa Família chegando a 35% da renda mediana do trabalho, "para cada duas famílias que recebem o Bolsa-Família, uma sai da força de trabalho". E quem sai da força de trabalho não é contado como desempregado. Registre-se o contraponto: pesquisa do Ipea sustenta que o programa não reduziu a proporção de ocupados nos domicílios beneficiários. O debate está aberto, e é exatamente ele que o número redondo de 5,4% não mostra.

A conta que junta os dois retratos

O elo entre os dois Brasis tem nome: custo de capital. Com a Selic em 14% ao ano, depois do pico de 15%, empresa alavancada rola dívida a preço de crise, e a recuperação judicial vira termômetro do crédito caro; agropecuária, serviços e comércio lideraram os pedidos de 2025, segundo a Serasa. A incerteza da transição tributária, com alíquotas de 2027 ainda indefinidas, entra no cálculo de quem decide investir, contratar ou fechar as portas. O emprego na mínima histórica é conquista a ser comemorada, com a honestidade de dizer o que a taxa mede; os balanços no vermelho e a informalidade de quase 4 em cada 10 ocupados são o aviso de que ela não está garantida. Ignorar qualquer um dos lados é fazer campanha, não análise.

Fontes

Serasa Experian: recuperações judiciais atingem 2,5 mil empresas em 2025, maior nível da série (07/04/2026)

IBGE: Entenda a metodologia e como funciona a PNAD Contínua (conceitos de ocupado e desocupado)

IBGE: PNAD Contínua do 2º trimestre de 2026 (subutilização e informalidade)

FGV Ibre: Indicadores contrafactuais do mercado de trabalho no 1º trimestre de 2026 (01/07/2026)

Gazeta do Povo: O que está por trás do desemprego em mínima histórica (04/04/2026)

Gazeta do Povo: Bolsa Família ampliado reduziu busca por emprego, dizem estudos da FGV (19/08/2025)

InfoMoney: Casas Bahia fala em recuperação após prejuízo de R$ 10 bi (16/08/2026)

O Tempo: Raízen pede recuperação extrajudicial para renegociar dívida de R$ 65 bilhões (11/03/2026)

IstoÉ Dinheiro: Correios anotam pior resultado da história, rombo de R$ 8,5 bilhões (23/04/2026)

Agência Brasil: Petrobras tem lucro líquido de R$ 52,4 bi no segundo trimestre (06/08/2026)

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